Caneta Emagrecedora pelo SUS: Saiba quem pode Receber
O Ministério da Saúde iniciou o uso da semaglutida em pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, a medida ainda não representa a distribuição das chamadas canetas emagrecedoras em toda a rede pública do país.
Neste primeiro momento, o governo federal oferecerá o medicamento a 250 pacientes acompanhados pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O hospital federal iniciou a primeira aplicação na sexta-feira, 26 de junho de 2026.
A iniciativa faz parte do projeto-piloto Real-Bari. Durante dois anos, médicos e pesquisadores acompanharão os participantes para avaliar a efetividade, a segurança, os efeitos clínicos e os custos do tratamento da obesidade com medicamentos à base de GLP-1.
Assim, os resultados poderão ajudar o Ministério da Saúde a decidir se esse tipo de tratamento funciona de maneira segura e financeiramente sustentável dentro da realidade do SUS.
Quem poderá receber a semaglutida pelo SUS?
O projeto não aceitará inscrições abertas ao público. As equipes selecionarão pacientes que já fazem acompanhamento no Grupo Hospitalar Conceição.
Além disso, os participantes precisam apresentar obesidade grave ou obesidade associada a outras doenças, como comprometimento cardíaco. O grupo também inclui pessoas com indicação para cirurgia bariátrica.
Segundo o Ministério da Saúde, 91% dos pacientes com obesidade acompanhados pela unidade apresentam a forma mórbida da doença. Entretanto, apenas 47% possuem condições clínicas para passar pela cirurgia bariátrica. A hipertensão arterial aparece como a doença associada mais frequente nesse público.
Para participar do estudo, o paciente também deve:
- ter diagnóstico de obesidade há pelo menos 12 meses;
- comprovar que o tratamento clínico convencional não produziu o resultado esperado;
- ter seguido dieta estruturada e praticado atividade física regular por pelo menos dois meses;
- compreender como realizar a autoaplicação do medicamento ou contar com a ajuda de um cuidador.
Portanto, a iniciativa prioriza pessoas com um quadro clínico mais grave e que já tentaram outras formas de tratamento.
Estudo acompanhará pacientes durante dois anos
Ao longo da pesquisa, as equipes observarão o percentual de perda de peso, a qualidade de vida dos participantes e os resultados dos exames clínicos.
Além disso, o projeto analisará as condições dos pacientes antes e depois de uma eventual cirurgia bariátrica. Os pesquisadores também calcularão os custos envolvidos no tratamento.
Dessa maneira, o governo pretende reunir dados brasileiros sobre o uso da semaglutida em pessoas com obesidade grave. Atualmente, grande parte das evidências disponíveis vem de estudos realizados em outros contextos de saúde.
A Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul transferirá os recursos para o hospital. Segundo o Ministério da Saúde, a empresa produtora do medicamento fez o aporte financeiro que sustenta a pesquisa.
Medicamento ainda não está disponível em todo o SUS
Apesar do início do projeto, a semaglutida e a liraglutida ainda não fazem parte da lista nacional de medicamentos oferecidos regularmente pelo SUS para o tratamento da obesidade.
Em agosto de 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) recomendou que o Ministério da Saúde não incorporasse os dois medicamentos à rede pública naquele momento.
A comissão considera dados de eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário antes de recomendar a inclusão de uma nova tecnologia.
Segundo o Ministério da Saúde, a oferta ampla de liraglutida e semaglutida poderia gerar um impacto estimado de R$ 8 bilhões por ano aos cofres públicos. O custo, portanto, representou um dos principais obstáculos para a incorporação nacional.
Por isso, o projeto iniciado no Rio Grande do Sul não significa que qualquer paciente poderá buscar a caneta em uma Unidade Básica de Saúde ou farmácia pública.
O que é a semaglutida?
A semaglutida pertence ao grupo dos agonistas do receptor de GLP-1. Essa substância imita a ação de um hormônio produzido pelo organismo e atua no controle da glicose, na redução do apetite e no aumento da sensação de saciedade.
Inicialmente, médicos passaram a usar medicamentos dessa classe no tratamento do diabetes tipo 2. Posteriormente, versões específicas também receberam autorização para o tratamento da obesidade.
Embora muitas pessoas conheçam esses produtos como “canetas emagrecedoras”, eles não funcionam como uma solução estética ou de emagrecimento rápido. O tratamento exige indicação clínica, prescrição e acompanhamento profissional.
Além disso, o medicamento deve integrar um cuidado mais amplo, que pode incluir acompanhamento médico, orientação nutricional, atividade física e suporte psicológico.
SUS registrou 9,7 milhões de atendimentos relacionados à obesidade
Em 2025, o SUS realizou 9,7 milhões de atendimentos relacionados à obesidade, segundo o Ministério da Saúde. O número representa um crescimento de 57% em comparação com 2022.
Na rede pública, o acompanhamento geralmente começa nas Unidades Básicas de Saúde. As equipes podem oferecer orientação nutricional, estímulo à prática de atividade física, apoio psicológico e acompanhamento multiprofissional.
Nos casos mais graves, o paciente pode seguir para serviços especializados e, quando necessário, passar por avaliação para cirurgia bariátrica.
O novo projeto, portanto, acrescenta uma possibilidade de tratamento medicamentoso para um grupo específico. Contudo, o estudo ainda precisará demonstrar se a estratégia apresenta benefícios clínicos e custos compatíveis com a estrutura do sistema público.
Uso exige prescrição e acompanhamento médico
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforça que os medicamentos da classe GLP-1 devem ser usados somente conforme as indicações aprovadas e com acompanhamento de um profissional habilitado.
Desde junho de 2025, as farmácias precisam reter a receita no momento da venda. A prescrição deve ter duas vias e possui validade de até 90 dias. A medida busca reduzir a automedicação e o uso fora das indicações autorizadas.
Além disso, esses medicamentos podem provocar efeitos adversos, como náuseas, vômitos, diarreia e alterações gastrointestinais. Em fevereiro de 2026, a Anvisa também reforçou o alerta sobre o risco de pancreatite aguda, uma reação grave que pode ocorrer, sobretudo, quando o paciente utiliza o produto de maneira inadequada.
Dor abdominal intensa e persistente, com possível irradiação para as costas, náuseas e vômitos exigem avaliação médica imediata.
Projeto pode orientar futuras decisões
O acompanhamento dos 250 participantes deverá produzir informações sobre perda de peso, qualidade de vida, segurança e impacto financeiro.
Entretanto, o Ministério da Saúde ainda não anunciou uma data para oferecer as canetas emagrecedoras em toda a rede pública. Qualquer ampliação dependerá dos resultados do estudo e de uma nova avaliação técnica, científica e orçamentária.
Por enquanto, a oferta permanece limitada aos pacientes selecionados no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre. Portanto, a iniciativa representa uma experiência controlada dentro do SUS, e não a incorporação nacional da semaglutida.
