Estudo associa conservantes de ultraprocessados a maior risco cardiovascular
A pesquisa analisou dados da coorte NutriNet-Santé, iniciada na França em 2009. Os participantes registraram repetidamente o que consumiam ao longo dos anos, inclusive marcas comerciais, permitindo aos pesquisadores estimar a exposição a dezenas de aditivos conservantes presentes nos alimentos.
O resultado chamou atenção: maior exposição a alguns desses conservantes esteve associada a maior incidência de hipertensão e, em alguns casos, de doença cardiovascular. Porém, o estudo é observacional e não prova que os aditivos, isoladamente, sejam a causa direta desses problemas.
Estudo acompanhou mais de 112 mil pessoas
A análise incluiu 112.395 participantes, com idade média de aproximadamente 43 anos. Cerca de 79% eram mulheres.
O acompanhamento mediano foi de 7,9 anos, período em que os pesquisadores registraram novos casos de hipertensão e eventos cardiovasculares.
Ao todo, foram identificados 5.544 casos de hipertensão e 2.450 eventos cardiovasculares durante o acompanhamento.
Uma característica importante do trabalho foi a quantidade de informação alimentar coletada. Os participantes podiam preencher registros alimentares de 24 horas diversas vezes ao longo do estudo, chegando a até 96 registros por pessoa.
Além disso, os pesquisadores consideraram marcas específicas e utilizaram bancos de dados de composição e análises laboratoriais para estimar quais aditivos estavam presentes em cada produto.
Conservantes foram associados a maior risco de pressão alta
Quando os participantes com maior consumo foram comparados aos de menor exposição, os conservantes não antioxidantes, considerados em conjunto, estiveram associados a 29% maior incidência de hipertensão.
Os conservantes antioxidantes, também analisados em conjunto, estiveram associados a aumento de 22%.
No caso das doenças cardiovasculares, a maior exposição ao conjunto dos conservantes não antioxidantes esteve associada a uma incidência 16% maior. Para doença coronariana, a associação chegou a 26%.
Esses números representam comparações estatísticas entre grupos com diferentes níveis de exposição. Eles não significam que determinado conservante aumentará o risco de uma pessoa exatamente nessa proporção.
Quais conservantes apareceram no estudo?
Os pesquisadores avaliaram 58 substâncias conservantes consumidas por pelo menos um participante.
Para as análises individuais mais robustas, concentraram-se em 17 aditivos consumidos por pelo menos 10% da população estudada.
Após os ajustes estatísticos para múltiplas comparações, oito conservantes individuais permaneceram associados a maior incidência de hipertensão.
Entre os destaques estavam:
- sorbato de potássio, identificado pelo código E202;
- metabissulfito de potássio, E224;
- nitrito de sódio, E250;
- ácido ascórbico, E300;
- ascorbato de sódio, E301;
- eritorbato de sódio, E316;
- ácido cítrico, E330;
- extratos de alecrim, E392.
Alguns resultados podem parecer surpreendentes, principalmente porque substâncias como ácido ascórbico e ácido cítrico também existem naturalmente em alimentos.
A questão, porém, é diferente: o estudo avaliou exposição aos aditivos utilizados industrialmente como conservantes, e não o consumo de vitamina C presente naturalmente em frutas ou de ácido cítrico naturalmente encontrado em alimentos.
Portanto, não seria correto interpretar o resultado como evidência de que laranja, limão ou alimentos naturalmente ricos em vitamina C aumentem o risco cardiovascular.
Sorbato de potássio apresentou uma das associações mais fortes
Entre os conservantes avaliados, o grupo dos sorbatos se destacou.
Maior exposição ao sorbato de potássio, ou E202, esteve associada a uma incidência aproximadamente 39% maior de hipertensão quando os consumidores de maior e menor exposição foram comparados.
O sorbato de potássio é utilizado para inibir crescimento de fungos e leveduras e pode aparecer em diferentes produtos industrializados.
Isso não significa que consumir ocasionalmente um alimento com E202 provoque hipertensão.
O estudo avaliou padrões de exposição ao longo do tempo e encontrou uma associação estatística em nível populacional.
Nitrito de sódio também apareceu
Outro resultado relevante envolveu os nitritos.
Maior exposição ao nitrito de sódio, E250, esteve associada a cerca de 16% maior incidência de hipertensão.
O composto é utilizado principalmente em produtos cárneos processados, entre outras funções, para conservação, controle microbiológico e manutenção de características de cor.
A relação entre carnes processadas, nitritos e saúde cardiovascular já vinha sendo investigada anteriormente.
Os próprios autores destacam que pesquisas anteriores da mesma coorte já haviam encontrado associação entre exposição a nitritos de aditivos e hipertensão.
E o ácido ascórbico?
Esse resultado exige cuidado especial.
O ácido ascórbico é a vitamina C, mas também pode ser adicionado industrialmente a produtos como antioxidante ou conservante.
No estudo, maior exposição ao ácido ascórbico utilizado como aditivo esteve associada a aproximadamente 14% maior incidência de hipertensão e 15% maior incidência de doença cardiovascular.
Isso não significa que a vitamina C seja prejudicial ao coração.
Um comentário científico publicado posteriormente no próprio European Heart Journal discutiu justamente a necessidade de interpretar com cautela esse resultado.
A fonte, a quantidade, o alimento em que o composto aparece e o padrão alimentar geral podem fazer diferença.
Frutas e verduras continuam sendo fontes naturais de vitamina C e fazem parte das recomendações alimentares para uma dieta saudável.
O problema são somente os ultraprocessados?
Não exatamente.
O estudo avaliou especificamente aditivos conservantes, e esses compostos podem aparecer em diferentes categorias de alimentos industrializados.
Entretanto, participantes que consumiam mais ultraprocessados também apresentavam, em média, maior exposição a conservantes. Um editorial publicado no European Heart Journal destacou essa relação como uma possível peça para explicar parte da associação já conhecida entre dietas ricas em ultraprocessados e risco cardiovascular.
Os pesquisadores também ajustaram as análises para vários componentes da dieta, incluindo consumo de frutas, verduras, carnes vermelhas, carnes processadas e proporção de ultraprocessados.
Mesmo depois desses ajustes, várias associações continuaram estatisticamente significativas.
Isso fortalece a hipótese de que alguns aditivos possam exercer um papel próprio.
Mas ainda não demonstra causalidade.
Por que ultraprocessados já preocupam cardiologistas?
Os ultraprocessados costumam reunir várias características que podem afetar a saúde cardiovascular.
Muitos são ricos em sal, açúcar, gorduras de pior qualidade e calorias, além de apresentarem menor quantidade de fibras e outros componentes presentes em alimentos in natura.
Além disso, contêm ingredientes utilizados para modificar textura, sabor, aparência, estabilidade e prazo de validade.
Em maio de 2026, sociedades ligadas à Sociedade Europeia de Cardiologia publicaram um documento de consenso destacando o alto consumo de ultraprocessados como uma preocupação relevante para prevenção cardiovascular.
Outro estudo prospectivo publicado neste ano, com 6.814 adultos nos Estados Unidos, encontrou associação entre maior consumo de ultraprocessados e maior ocorrência de eventos cardiovasculares ao longo do acompanhamento. Cada porção diária adicional esteve associada a um aumento de aproximadamente 5% no risco observado.
Novamente, esses estudos mostram associação.
O estudo prova que conservantes causam infarto?
Não.
Esse talvez seja o ponto mais importante.
A pesquisa é uma coorte prospectiva, portanto acompanha pessoas ao longo do tempo e compara diferentes níveis de exposição.
Esse desenho é mais robusto do que simplesmente perguntar às pessoas, depois de um problema de saúde, o que elas comiam anteriormente.
Mesmo assim, não é um ensaio clínico randomizado.
Os pesquisadores não distribuíram aleatoriamente grandes quantidades de conservantes para um grupo e ausência deles para outro.
Por isso, podem existir fatores de estilo de vida ou alimentação que não foram completamente capturados pelas análises estatísticas.
Os autores utilizam justamente a expressão “associado a”, e não “causou”.
O estudo tem outras limitações
A população analisada também não representa perfeitamente toda a sociedade.
Os próprios autores ressaltam que participantes da NutriNet-Santé tendem a ser mais escolarizados, ter hábitos mais saudáveis e apresentar maior participação feminina do que a população francesa em geral.
Além disso, apesar de o método alimentar ser bastante detalhado, qualquer pesquisa que dependa de registros de alimentação pode apresentar erros de lembrança ou de preenchimento.
Outro ponto é que produtos industrializados mudam de formulação ao longo do tempo.
Por isso, é difícil determinar com precisão absoluta a exposição individual a cada aditivo durante vários anos.
É preciso evitar qualquer alimento com conservante?
Os resultados não justificam concluir que qualquer produto contendo conservantes precise ser eliminado da alimentação.
A segurança dos aditivos alimentares é avaliada por órgãos reguladores, que estabelecem condições e limites de utilização.
O novo estudo levanta uma questão diferente: a exposição frequente e prolongada a determinados aditivos, dentro de padrões alimentares reais, poderia ter efeitos de longo prazo que merecem investigação adicional?
Essa hipótese agora precisa ser testada por outros grupos e em diferentes populações.
Os autores defendem a realização de novos estudos epidemiológicos e experimentais para entender melhor os mecanismos envolvidos.
Como reduzir a exposição sem decorar códigos de aditivos?
Para a maioria das pessoas, não é necessário transformar a compra de alimentos em uma busca por dezenas de códigos como E202, E250 ou E330.
Uma estratégia mais simples é reduzir a frequência com que ultraprocessados dominam a alimentação e aumentar a presença de alimentos in natura ou minimamente processados.
Na prática, isso significa priorizar alimentos como frutas, verduras, legumes, feijão, arroz, ovos, carnes, leite e preparações feitas em casa ou com poucos ingredientes.
Também vale comparar rótulos de produtos semelhantes.
Uma lista de ingredientes muito longa, com diversos aditivos, pode indicar um alimento com maior grau de formulação industrial.
Nem todo alimento industrializado é igual
Esse também é um ponto importante.
Industrializado não é sinônimo automático de prejudicial.
Leite pasteurizado, vegetais congelados, aveia, iogurte natural e diversos outros alimentos passam por processamento industrial sem necessariamente serem ultraprocessados.
Da mesma forma, um alimento que possui um conservante não se torna automaticamente responsável por doença cardiovascular.
O padrão alimentar completo continua sendo mais importante do que analisar isoladamente um ingrediente.
O que a pesquisa acrescenta?
Até agora, grande parte das pesquisas relacionava o consumo total de ultraprocessados a doenças cardiovasculares.
O novo estudo tenta avançar uma etapa e responder uma pergunta mais específica:
o que exatamente nesses alimentos poderia explicar parte do risco observado?
Os resultados indicam que determinados conservantes podem ser uma das possíveis peças dessa relação. Um editorial científico que acompanhou o estudo classificou os conservantes como uma possível via ligando dietas modernas a maior risco cardiovascular.
Ainda assim, será necessário reproduzir os achados em outras populações antes de transformar essas associações em novas recomendações clínicas ou regulatórias.
Enquanto isso, a recomendação prática permanece semelhante à adotada por diretrizes de alimentação saudável: não é preciso ter medo de um aditivo isolado, mas vale evitar que ultraprocessados sejam a base da alimentação diária.
