Obesidade infantil: o que deve mudar na alimentação das crianças, segundo a OMS
Neste 12 de outubro, Dia das Crianças, uma preocupação crescente com a saúde infantil ganha um novo olhar da Organização Mundial da Saúde (OMS): a obesidade.
A entidade publicou nesta semana suas primeiras diretrizes globais para o manejo integrado da obesidade em crianças e adolescentes, com recomendações sobre alimentação, atividade física, comportamento sedentário, sono, medicamentos e, em situações específicas, cirurgia.
O ponto central é que o tratamento não deve se resumir à perda de peso nem colocar toda a responsabilidade sobre a criança. A OMS recomenda intervenções estruturadas que envolvam alimentação, atividade física e mudança de comportamento, de preferência com participação dos pais ou responsáveis e acompanhamento de profissionais de saúde.
Alimentação é uma das bases do tratamento
Segundo a OMS, crianças e adolescentes com obesidade devem ter acesso a intervenções alimentares estruturadas, realizadas individualmente ou como parte de um programa que combine diferentes estratégias.
Isso significa que o tratamento não deve depender de dietas improvisadas, restrições extremas ou da simples proibição de determinados alimentos.
A alimentação deve ser adequada à idade, ao crescimento e às necessidades nutricionais da criança, além de considerar a realidade da família, seus hábitos e condições de acesso aos alimentos.
Não existe uma dieta única para todas as crianças
As novas diretrizes não estabelecem uma dieta específica que todas as crianças com obesidade devam seguir.
A OMS trabalha com uma abordagem individualizada e centrada na pessoa e na família.
De maneira geral, uma alimentação saudável deve ser baseada em variedade, equilíbrio, moderação e adequação nutricional, priorizando alimentos pouco ou minimamente processados e limitando produtos com excesso de açúcares livres, sal e gorduras menos saudáveis.
Frutas, verduras, legumes, feijões e outras leguminosas, cereais integrais e oleaginosas podem fazer parte desse padrão alimentar.
Mais importante do que transformar um alimento específico em “vilão” é observar como a criança se alimenta ao longo do dia e da semana.
A família também precisa mudar
Um dos pontos mais importantes das novas recomendações é que o cuidado não deve ser direcionado apenas à criança.
A OMS defende uma abordagem centrada na criança ou adolescente e em seus cuidadores, respeitando necessidades, preferências e condições familiares.
Na prática, isso pode significar mudanças para toda a casa, como:
- aumentar a disponibilidade de frutas, verduras e outros alimentos nutritivos;
- organizar melhor os horários das refeições;
- diminuir a presença frequente de bebidas açucaradas e alimentos de alta densidade energética e baixo valor nutricional;
- evitar usar alimentos como prêmio ou punição;
- reduzir refeições feitas diante de celulares, tablets ou televisão;
- permitir que a criança participe da escolha e do preparo dos alimentos;
- estimular refeições em família quando possível.
O objetivo é criar um ambiente que torne escolhas mais saudáveis mais fáceis e sustentáveis.
Criança não deve ser colocada em “dieta para emagrecer” por conta própria
Na infância, o organismo ainda está em crescimento.
Por isso, mudanças alimentares restritivas sem acompanhamento profissional podem comprometer a ingestão de nutrientes importantes.
Além disso, o tratamento da obesidade não deve ser avaliado somente pela velocidade da perda de peso.
Crescimento adequado, melhora da saúde metabólica, condicionamento físico, sono, bem-estar emocional, funcionamento no dia a dia e qualidade de vida também fazem parte dos resultados importantes. A OMS define a obesidade como uma doença crônica e recorrente, que exige cuidado continuado.
Atividade física faz parte do tratamento
A alimentação não deve ser tratada isoladamente.
A OMS recomenda fortemente intervenções estruturadas de atividade física e mudança de comportamento para crianças e adolescentes com obesidade.
A atividade deve ser adequada à idade, condição física e possíveis limitações de cada criança.
Além do gasto energético, brincar, correr, andar de bicicleta, praticar esportes e outras formas de movimento contribuem para desenvolvimento motor, saúde cardiovascular, força muscular, sono e bem-estar.
O foco deve ser construir uma relação positiva com o movimento, e não utilizar exercício como punição pelo que a criança comeu.
Sono e tempo sentado também entram na avaliação
As diretrizes não olham apenas para comida e exercício.
A OMS inclui também sono e comportamento sedentário entre os componentes que devem ser considerados no manejo da obesidade infantil e adolescente.
Isso significa observar quanto tempo a criança passa sentada, como está a rotina de sono e quanto espaço existe no dia para movimento e brincadeiras.
O objetivo não é simplesmente retirar aparelhos eletrônicos, mas construir uma rotina mais equilibrada.
E as canetas emagrecedoras?
Esse é um dos pontos que mais chamam atenção nas novas diretrizes.
A OMS não recomenda tratamento farmacológico para obesidade em crianças menores de 10 anos. Também não recomenda cirurgia bariátrica nem dispositivos para perda de peso nessa faixa etária.
Portanto, medicamentos utilizados no tratamento da obesidade não fazem parte da recomendação da OMS para crianças de 0 a 9 anos.
Nessa idade, a base do cuidado continua sendo intervenção estruturada em alimentação, atividade física e comportamento.
E para adolescentes?
Para adolescentes de 10 a 19 anos, o cenário é diferente.
A OMS afirma que medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade podem ser considerados em situações específicas, mas somente quando um programa multimodal supervisionado de mudança do estilo de vida não atingir os resultados desejados.
Isso significa que medicamentos não substituem alimentação adequada, atividade física e acompanhamento.
A decisão também deve considerar características individuais, possíveis complicações relacionadas à obesidade, benefícios, riscos e acompanhamento profissional.
Cirurgia bariátrica fica restrita a casos selecionados
A cirurgia bariátrica também não é tratamento de rotina para crianças e adolescentes.
Para menores de 10 anos, a OMS não recomenda o procedimento.
Entre adolescentes, a cirurgia pode ser considerada em casos de obesidade grave, sob critérios rigorosos e dentro de acompanhamento especializado.
Mesmo nesses casos, o procedimento não substitui o acompanhamento nutricional, comportamental e clínico de longo prazo.
Saúde mental também faz parte do cuidado
Crianças e adolescentes com obesidade podem enfrentar preconceito, bullying e discriminação.
A OMS alerta que o estigma pode afetar saúde física, saúde mental, desempenho escolar, relações sociais e qualidade de vida.
Por isso, comentários humilhantes sobre peso, comparações corporais e cobranças excessivas podem prejudicar em vez de ajudar.
A abordagem recomendada é centrada em saúde e bem-estar, sem culpabilizar a criança pela doença.
Escola também influencia a alimentação
O ambiente escolar é outro ponto importante.
Em diretriz publicada neste ano, a OMS recomenda que os países adotem políticas que aumentem a oferta e o consumo de alimentos compatíveis com uma dieta saudável nas escolas e reduzam a presença de produtos que não estejam alinhados às recomendações nutricionais.
Isso é relevante porque crianças e adolescentes passam uma parcela importante do dia no ambiente escolar, onde podem desenvolver hábitos que permanecem na vida adulta.
Obesidade entre crianças e adolescentes quadruplicou desde 1990
A publicação das novas diretrizes ocorre diante de um crescimento expressivo da obesidade nessa faixa etária.
Em 2024, cerca de 170 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos viviam com obesidade no mundo.
Desse total, aproximadamente 70 milhões tinham entre 5 e 9 anos e 100 milhões eram adolescentes entre 10 e 19 anos.
A prevalência de obesidade nessa faixa etária passou de 2% em 1990 para 8% em 2024, quadruplicando em pouco mais de três décadas.
Quando também são consideradas crianças e adolescentes com sobrepeso, o número chega a aproximadamente 400 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos.
Consequências podem aparecer ainda na infância
A obesidade pode aumentar o risco de problemas de saúde antes mesmo da chegada à vida adulta.
Entre as consequências estão maior risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, além dos impactos emocionais e sociais associados ao estigma e à discriminação.
A obesidade durante a infância e adolescência também aumenta a chance de o problema permanecer na idade adulta.
Por isso, a OMS recomenda identificação e tratamento precoces.
Afinal, o que deve mudar na alimentação?
A nova diretriz não apresenta uma lista simples de alimentos “permitidos” e “proibidos”.
O principal recado é mudar o padrão alimentar e o ambiente ao redor da criança.
Isso significa favorecer uma alimentação variada e nutricionalmente adequada, com maior presença de alimentos pouco ou minimamente processados, frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas e oleaginosas, enquanto se limita o consumo de bebidas açucaradas e alimentos ricos em açúcares, sal e gorduras.
As mudanças precisam ser sustentáveis e, sempre que possível, envolver toda a família.
Dia das Crianças também pode ser um momento para repensar hábitos
O Dia das Crianças costuma estar associado a doces, lanches, festas e presentes — e não há necessidade de transformar uma comemoração isolada em motivo de culpa.
A alimentação saudável é construída pelo conjunto dos hábitos ao longo do tempo.
Mais importante do que proibir completamente determinados alimentos é garantir que, na maior parte da rotina, crianças tenham acesso a uma alimentação variada, oportunidades de brincar e se movimentar, sono adequado e um ambiente livre de estigma relacionado ao peso.
As novas diretrizes da OMS reforçam justamente essa visão: combater a obesidade infantil exige cuidado contínuo, participação da família e condições que tornem escolhas saudáveis possíveis, e não apenas cobrar mudanças individuais da criança.
