Saúde

Mulheres Negras têm Maior Risco de Morte Materna no Brasil

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O Brasil ainda perde centenas de mulheres todos os anos por complicações ligadas à gestação, ao parto e ao pós-parto. Esse dado preocupa. Afinal, grande parte dessas mortes poderia ser evitada com atendimento adequado.

Além disso, os números revelam uma desigualdade persistente. Mulheres negras enfrentam maior risco de morte materna. Entre elas, mulheres pretas aparecem em situação ainda mais grave.

Em 2024, o Brasil registrou 1.347 mortes maternas. A razão chegou a 56,4 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos. A meta brasileira para 2030 é reduzir esse índice para 30 mortes a cada 100 mil nascidos vivos.

A mortalidade materna inclui mortes durante a gestação ou até 42 dias após o fim da gravidez. No entanto, o óbito precisa ter relação com a gravidez, o parto ou o puerpério.

O dado é grave. Porém, outro ponto chama ainda mais atenção. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, nove em cada dez mortes maternas podem ser evitadas.

Na prática, essas mortes costumam apontar falhas no cuidado. Entre elas, aparecem pré-natal incompleto, diagnóstico tardio, demora no encaminhamento e falta de estrutura para urgências obstétricas.

Mulheres negras morrem mais

A desigualdade racial aparece com força nos dados. Em 2022, a razão de morte materna chegou a 46,56 óbitos por 100 mil nascidos vivos entre mulheres brancas. Entre mulheres pretas, o índice alcançou 100,38. Portanto, foi mais que o dobro. Entre mulheres pardas, a razão ficou em 50,36.

Além disso, um estudo publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health analisou mortes maternas no Brasil entre 2000 e 2020. A pesquisa identificou 40.907 óbitos maternos no período. Mulheres negras, grupo que reúne pretas e pardas, concentraram aproximadamente 65% dessas mortes.

Esses números mostram que o risco não se distribui de forma igual. Mulheres pretas, pardas e indígenas enfrentam mais barreiras. Entre elas, aparecem pobreza, baixa escolaridade, distância dos serviços de saúde e atendimento de pior qualidade.

No entanto, a desigualdade não depende apenas de renda ou território. O racismo institucional também pesa. Muitas mulheres negras relatam dor, sangramento, falta de ar ou mal-estar e não recebem a mesma escuta clínica.

Por isso, a mortalidade materna também revela uma falha de acolhimento. Quando o serviço minimiza uma queixa, ele pode atrasar o diagnóstico. Com isso, uma complicação controlável pode se tornar fatal.

A maioria das mortes poderia ser evitada

As principais causas de morte materna incluem hipertensão na gravidez, pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hemorragias, infecções e complicações no parto. Também entram nesse cenário as complicações relacionadas ao aborto.

As causas obstétricas diretas concentram cerca de 66% das mortes maternas no país. Esse grupo inclui síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações ligadas ao aborto.

Por isso, o atendimento rápido salva vidas. Pressão alta, dor de cabeça forte, sangramento intenso, febre, falta de ar e alteração visual exigem avaliação imediata. Esses sinais não devem ser tratados como sintomas comuns da gravidez.

Além disso, o pós-parto exige atenção contínua. Muitas mulheres recebem alta e perdem acompanhamento regular. Porém, complicações graves podem ocorrer nos dias seguintes ao nascimento do bebê.

Febre, sangramento excessivo, dor no peito, falta de ar e pressão alta precisam de avaliação rápida. A tristeza intensa também merece cuidado. Afinal, o puerpério aumenta a vulnerabilidade física e emocional.

Pré-natal precisa ter qualidade

O Brasil tem ampla cobertura de pré-natal. No entanto, consulta registrada não garante proteção. O acompanhamento precisa avaliar riscos, orientar a gestante e agir no tempo certo.

Para isso, a equipe deve medir pressão, solicitar exames e investigar sintomas. Além disso, precisa encaminhar a gestante quando houver sinal de gravidade.

Quando a mulher chega ao serviço de saúde, a equipe precisa ouvi-la. Dor, sangramento, tontura, falta de ar e mal-estar não podem ser minimizados. Em muitos casos, a escuta qualificada evita mortes.

Por outro lado, a demora piora o quadro. Uma hipertensão sem controle pode evoluir para eclâmpsia. Uma infecção pode avançar. Uma hemorragia pode matar em pouco tempo.

Portanto, a prevenção depende de uma rede organizada. A gestante precisa encontrar atendimento próximo, transporte adequado e maternidade preparada.

Falhas atingem mais quem já vive em vulnerabilidade

As mortes maternas também expõem desigualdades sociais. Mulheres pobres, negras, indígenas, adolescentes e moradoras de áreas distantes enfrentam mais obstáculos.

Muitas dependem de transporte público. Outras vivem longe de maternidades de referência. Além disso, algumas regiões têm falta de profissionais, equipamentos e leitos especializados.

Norte e Nordeste concentram maior vulnerabilidade. Ainda assim, o problema também aparece em periferias urbanas de outras regiões. Portanto, a mortalidade materna não é apenas um tema hospitalar. Ela também expressa desigualdade social.

A morte de uma mãe afeta toda a família. Crianças podem enfrentar insegurança alimentar, evasão escolar e sofrimento psíquico. Dessa forma, o impacto ultrapassa o momento do óbito.

Rede Alyne busca reduzir mortes

Em 2024, o Ministério da Saúde lançou a Rede Alyne. A estratégia substituiu a antiga Rede Cegonha e busca fortalecer o cuidado a gestantes, mães e bebês no SUS.

O programa tem foco em equidade racial. A meta é reduzir em 50% a mortalidade materna de mulheres negras até 2027.

A rede homenageia Alyne Pimentel, mulher negra que morreu grávida após falhas no atendimento no Rio de Janeiro. O caso virou símbolo da luta contra mortes maternas evitáveis.

Além disso, a iniciativa busca integrar pré-natal, parto, puerpério e atenção à criança. Assim, o cuidado não termina na maternidade. Ele precisa continuar depois da alta.

O que precisa mudar

Para reduzir mortes maternas, o país precisa melhorar a qualidade do cuidado. Não basta ampliar o número de consultas. A rede também deve garantir diagnóstico precoce, transporte adequado e atendimento rápido.

Além disso, maternidades precisam se preparar para emergências. Equipes devem reconhecer sinais de risco. A Atenção Primária também precisa acompanhar a mulher antes e depois do parto.

O combate ao racismo institucional deve fazer parte dessa resposta. A equipe de saúde precisa escutar a queixa de uma mulher negra com seriedade. Nenhuma dor deve virar “exagero”. Nenhum sinal clínico deve passar despercebido.

A mortalidade materna mostra a qualidade real de um sistema de saúde. Quando uma mulher morre por causa evitável, a rede falhou. Quando essa falha atinge mais mulheres negras, o país também precisa reconhecer a desigualdade racial.

Portanto, reduzir essas mortes é uma urgência de saúde pública. Mas também é uma questão de justiça social.

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