Saúde

Retatrutida Anima Especialistas, mas Venda Segue Proibida no Brasil

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A retatrutida, molécula experimental desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, voltou ao centro das atenções após a divulgação de novos dados de fase 3 para tratamento da obesidade. O estudo TRIUMPH-1 avaliou adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade, sem diabetes, e apontou perda média de até 28,3% do peso corporal em 80 semanas com a dose de 12 mg. Além disso, 45,3% dos participantes que usaram essa dose perderam 30% ou mais do peso inicial.

A molécula chama atenção porque atua de forma diferente dos medicamentos mais conhecidos da classe dos análogos de GLP-1. Enquanto alguns tratamentos agem principalmente sobre o receptor GLP-1, a retatrutida funciona como um agonista triplo. Isso significa que ela ativa três vias hormonais ligadas ao metabolismo: GIP, GLP-1 e glucagon. Na prática, essa combinação busca ampliar o efeito sobre saciedade, controle glicêmico, gasto energético e perda de peso.

Resultados chamam atenção, mas exigem cautela

Segundo os dados divulgados pela Eli Lilly, os participantes que receberam 4 mg perderam, em média, 19% do peso corporal em 80 semanas. Já o grupo de 9 mg teve redução média de 25,9%, enquanto o grupo de 12 mg alcançou 28,3%. A empresa também informou melhora em indicadores cardiometabólicos, como circunferência abdominal, colesterol não-HDL, triglicerídeos, pressão arterial sistólica e proteína C reativa de alta sensibilidade, marcador relacionado à inflamação.

Mesmo assim, o medicamento ainda não está liberado para uso amplo. A própria Lilly informa que a retatrutida segue como molécula investigacional, disponível legalmente apenas para participantes de estudos clínicos patrocinados pela empresa. A farmacêutica também alerta que produtos vendidos fora desses estudos podem conter impurezas, dosagens erradas ou até substâncias diferentes da anunciada.

Efeitos colaterais foram principalmente gastrointestinais

Os eventos adversos mais comuns observados no estudo acompanharam o padrão já conhecido em terapias baseadas em incretinas. Entre os participantes que usaram retatrutida, os efeitos mais frequentes foram náusea, diarreia, constipação, vômitos e infecção de vias aéreas superiores. A ocorrência variou conforme a dose, sendo mais comum nos grupos que receberam doses maiores.

Também houve registros de disestesia, uma alteração de sensibilidade que pode causar formigamento, dormência ou sensação anormal na pele. No estudo, esse efeito apareceu em 5,1% dos participantes que usaram 4 mg, 12,3% dos que usaram 9 mg e 12,5% dos que usaram 12 mg, contra 0,9% no grupo placebo. A interrupção do tratamento por eventos adversos ocorreu em 4,1%, 6,9% e 11,3% nos grupos de 4 mg, 9 mg e 12 mg, respectivamente, em comparação com 4,9% no placebo.

No Brasil, venda é proibida

No Brasil, a Anvisa determinou, em janeiro de 2026, a apreensão e a proibição da retatrutida de todas as marcas e lotes. A agência informou que esses produtos não podem ser comercializados, distribuídos, fabricados, importados, divulgados ou usados. A decisão atingiu produtos irregulares vendidos principalmente por perfis em redes sociais, sem registro, notificação ou cadastro sanitário.

Portanto, qualquer oferta de retatrutida no mercado brasileiro deve ser vista como irregular. A promessa de emagrecimento rápido pode atrair pessoas que convivem com obesidade ou sobrepeso, mas o uso de substâncias sem aprovação, sem controle de qualidade e sem acompanhamento médico traz riscos reais à saúde.

Obesidade avança e aumenta busca por novos tratamentos

O interesse por medicamentos mais eficazes cresce em um cenário de avanço da obesidade no Brasil e no mundo. Dados recentes do Vigitel 2025, citados pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, indicam que a prevalência de obesidade em adultos no país passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. No mesmo período, o excesso de peso subiu de 42,6% para 62,6%.

Esse cenário reforça a importância de novas opções terapêuticas, mas também exige responsabilidade. A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e relacionada a fatores genéticos, metabólicos, comportamentais, sociais e ambientais. Por isso, o tratamento não deve se limitar ao uso de uma medicação. Ele precisa envolver avaliação clínica, acompanhamento nutricional, atividade física, cuidado com sono, saúde mental e investigação de doenças associadas.

O que esperar agora

A retatrutida ainda precisa passar por etapas regulatórias antes de chegar ao mercado. A Lilly informou que segue avaliando a molécula em estudos de fase 3 para obesidade, diabetes tipo 2, osteoartrite de joelho, apneia obstrutiva do sono, dor lombar crônica, desfechos cardiovasculares e renais, além de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica.

Até que órgãos reguladores aprovem o medicamento, a orientação é clara: a retatrutida não deve ser comprada, manipulada ou usada fora de pesquisa clínica autorizada. Os resultados são relevantes e podem representar um avanço no tratamento da obesidade, mas ainda não autorizam consumo por conta própria nem venda no Brasil.

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