Retatrutida leva a perda média de 20% do peso em estudo
A retatrutida, medicamento experimental da Eli Lilly para obesidade e diabetes tipo 2, levou a uma perda média de até 20,8% do peso corporal em um estudo de fase 3 com 1.152 participantes. Os resultados detalhados do ensaio TRIUMPH-2 foram divulgados nesta semana e apresentados no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, em Milão.
Na dose mais alta, de 12 mg por semana, os participantes perderam em média 22,5 kg ao longo de 80 semanas. Além disso, entre aqueles que começaram o estudo com IMC igual ou superior a 35, a redução média chegou a 23,4% do peso corporal.
Apesar dos resultados expressivos, a retatrutida ainda não foi aprovada por nenhuma agência reguladora e não pode ser comercializada legalmente. Por isso, qualquer produto vendido atualmente com esse nome fora de estudos clínicos deve ser considerado irregular.
O que é a retatrutida?
A retatrutida é uma molécula aplicada uma vez por semana que atua simultaneamente em três receptores hormonais: GLP-1, GIP e glucagon. Essa combinação faz com que ela seja chamada de agonista triplo.
Medicamentos como a semaglutida atuam principalmente no receptor de GLP-1. Já a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro e do Zepbound, age sobre GLP-1 e GIP. A retatrutida acrescenta a esse mecanismo também a ação sobre o receptor de glucagon.
A proposta é influenciar diferentes vias relacionadas ao apetite, controle da glicose e gasto energético. No entanto, isso não significa que atuar em mais receptores torne automaticamente o medicamento melhor ou mais seguro. A eficácia e os riscos precisam ser avaliados nos estudos clínicos.
Como foi feito o estudo?
O TRIUMPH-2 foi um ensaio clínico de fase 3, randomizado e duplo-cego, com duração de 80 semanas. Participaram 1.152 adultos com diabetes tipo 2 e obesidade ou sobrepeso.
Os voluntários foram divididos em quatro grupos. Três receberam retatrutida nas doses de 4 mg, 9 mg ou 12 mg por semana, enquanto o quarto recebeu placebo.
Os participantes começaram com dose menor, de 2 mg, e fizeram aumentos graduais a cada quatro semanas até alcançar a dose definida para cada grupo. Essa progressão busca melhorar a tolerância ao medicamento, especialmente porque os efeitos gastrointestinais tendem a ser mais frequentes durante o aumento da dose.
Quanto peso os participantes perderam?
Os resultados mostraram uma relação clara entre dose e perda de peso.
Depois de 80 semanas, os participantes que receberam 4 mg perderam em média 12,7% do peso corporal. No grupo de 9 mg, a redução média chegou a 19,1%. Já entre aqueles que utilizaram 12 mg, a perda média foi de 20,8%.
O peso médio inicial dos participantes era de aproximadamente 106,4 kg. Assim, no grupo de maior dose, a redução média ficou em torno de 22,5 kg.
O grupo placebo também perdeu peso, mas em menor proporção: cerca de 4% em média.
Quem tinha obesidade mais grave perdeu ainda mais peso
Entre os participantes que começaram o estudo com IMC igual ou superior a 35, a dose de 12 mg levou a uma redução média de 23,4% do peso corporal. Isso correspondeu a aproximadamente 27,6 kg.
Além disso, mais da metade dos participantes tratados com a dose mais alta deixou de preencher os critérios de IMC utilizados para classificar obesidade ao final do período avaliado.
Esse resultado chama atenção porque perder mais de 20% do peso corporal com tratamento medicamentoso era algo difícil de alcançar até a chegada das novas terapias para obesidade.
Retatrutida também reduziu a glicose
Como o estudo incluiu pessoas com diabetes tipo 2, os pesquisadores avaliaram também a hemoglobina glicada, exame que mostra a média aproximada da glicose nos últimos meses.
No início, a HbA1c média era de 7,7%. Ao final do estudo, a redução chegou a 1,6 ponto percentual em alguns grupos tratados com retatrutida.
Além disso, até 40% dos participantes alcançaram hemoglobina glicada abaixo de 5,7%, faixa normalmente utilizada como referência para valores sem diabetes. Isso, porém, não significa necessariamente que essas pessoas tenham sido “curadas” da doença, já que o resultado ocorreu durante o uso do medicamento.
Houve melhora de outros fatores de risco
A dose mais alta também esteve associada a mudanças em vários marcadores cardiometabólicos.
Segundo os dados divulgados pela fabricante, houve redução média de 39,5% nos triglicerídeos, 19,6% no colesterol não HDL e 10,8 mmHg na pressão arterial sistólica. A circunferência abdominal também caiu, assim como a proteína C-reativa de alta sensibilidade, marcador relacionado à inflamação.
Esses resultados são interessantes, mas ainda não provam que a retatrutida reduza infartos, AVCs ou mortes cardiovasculares. Para responder a esse tipo de pergunta, são necessários estudos específicos de desfechos cardiovasculares.
Quais foram os efeitos colaterais?
Assim como já acontece com outros medicamentos que atuam em GLP-1 e GIP, os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais.
Na dose de 12 mg, 33,6% dos participantes tiveram diarreia, 28% apresentaram náusea, 16,8% constipação e 15,7% vômitos. Também houve relatos de diminuição do apetite.
Na maioria dos casos, esses efeitos foram classificados como leves ou moderados e diminuíram durante o tratamento.
Mesmo assim, algumas pessoas interromperam o medicamento por causa de reações adversas. A taxa de abandono por esse motivo foi de 7,7% no grupo de 12 mg, 11,6% no grupo de 9 mg e 3,8% entre aqueles que utilizaram 4 mg. No placebo, a taxa foi de 4,9%.
Outros efeitos também chamaram atenção
O estudo registrou ainda casos de disestesia, termo usado para alterações de sensibilidade como formigamento, queimação ou sensações anormais na pele.
Esse efeito apareceu em 7,3% dos participantes que receberam 12 mg, contra 0,7% no grupo placebo. Infecções urinárias também ocorreram em alguns participantes.
Esses achados deverão continuar sendo acompanhados em estudos maiores e em análises regulatórias antes de qualquer eventual aprovação.
Retatrutida é melhor que Mounjaro ou Wegovy?
Ainda não é possível responder de forma definitiva.
Os resultados da retatrutida são expressivos, mas comparações entre medicamentos feitas a partir de estudos separados podem ser enganosas. Cada ensaio inclui pacientes diferentes, períodos de acompanhamento distintos e protocolos próprios.
Para afirmar que a retatrutida é superior à tirzepatida ou semaglutida, o ideal seria um estudo comparando diretamente os medicamentos nas mesmas condições.
Além disso, a escolha de um tratamento para obesidade ou diabetes não depende apenas da porcentagem de perda de peso. Segurança, tolerabilidade, doenças associadas, custo e facilidade de acesso também importam.
Ela já é vendida no Brasil?
Não.
A retatrutida continua sendo um medicamento experimental. A Eli Lilly afirma que ela ainda não recebeu aprovação de nenhuma agência reguladora e alerta que produtos vendidos atualmente com esse nome podem conter ingredientes desconhecidos, contaminantes ou concentrações diferentes daquelas declaradas.
Portanto, não existe retatrutida legalmente disponível em farmácias brasileiras neste momento.
A empresa pretende solicitar aprovação à FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, no primeiro trimestre de 2027.
Depois disso, cada país precisará analisar seus próprios pedidos regulatórios antes de permitir a comercialização.
Por que já existem anúncios de retatrutida na internet?
O interesse pelo medicamento cresceu antes mesmo de sua aprovação por causa dos resultados divulgados nos estudos.
No entanto, a própria fabricante alerta que substâncias anunciadas como retatrutida fora dos estudos clínicos não passaram pelos mesmos controles de fabricação, qualidade e segurança.
Por isso, produtos vendidos em redes sociais, sites ou importados informalmente não devem ser tratados como equivalentes ao medicamento usado nos ensaios clínicos.
Além de não haver garantia sobre o conteúdo, esses produtos podem apresentar dose incorreta ou outras substâncias.
Retatrutida será uma nova “caneta emagrecedora”?
É provável que o medicamento seja administrado em formato semelhante ao de outros tratamentos injetáveis semanais, caso receba aprovação. No entanto, neste momento, falar em “nova caneta disponível” seria prematuro.
O TRIUMPH-2 avaliou uma formulação injetável semanal experimental. A definição comercial, apresentação final, preço e disponibilidade dependerão da aprovação regulatória.
Por isso, a forma mais correta de descrevê-la atualmente é como medicamento injetável experimental de aplicação semanal.
O que ainda falta saber?
Embora os resultados de perda de peso sejam fortes, algumas perguntas continuam abertas.
Ainda será importante saber como os pacientes mantêm o peso após interromper o tratamento, como ficam os efeitos adversos no uso por vários anos e quais serão os resultados cardiovasculares e renais de longo prazo.
A Lilly também está estudando a retatrutida em outras condições, incluindo apneia obstrutiva do sono, osteoartrite do joelho, doença hepática metabólica e desfechos cardiovasculares e renais.
Além disso, os resultados detalhados do TRIUMPH-2 ainda precisam passar pelo processo completo de publicação científica revisada por pares.
O que o estudo realmente mostra?
O TRIUMPH-2 traz um dos resultados mais expressivos já observados em um estudo avançado de medicamento para obesidade em pessoas com diabetes tipo 2.
Na maior dose estudada, a retatrutida levou a uma perda média de 20,8% do peso em 80 semanas. Pessoas com IMC inicial de 35 ou mais chegaram a uma redução média de 23,4%. Ao mesmo tempo, o medicamento melhorou o controle glicêmico e vários marcadores metabólicos.
Por outro lado, os efeitos gastrointestinais foram frequentes, e a retatrutida continua experimental.
Assim, o resultado representa um avanço importante na pesquisa de tratamentos para obesidade, mas ainda não significa que exista uma nova caneta pronta para ser comprada nas farmácias.
