Vitamina D e cálcio evita fraturas? Estudo coloca benefício em dúvida
Tomar vitamina D ou cálcio por rotina pode não reduzir o risco de quedas e fraturas na maioria dos adultos. Essa é a conclusão de uma ampla revisão sistemática e meta-análise publicada no periódico científico The BMJ, que reuniu 69 ensaios clínicos randomizados e dados de 153.902 participantes.
Os pesquisadores compararam o uso de cálcio, vitamina D ou a combinação dos dois com placebo ou ausência de suplementação. De modo geral, encontraram pouco ou nenhum benefício clinicamente relevante na prevenção de fraturas e quedas.
O resultado, porém, não significa que esses nutrientes tenham deixado de ser importantes para os ossos. Também não indica que pessoas com deficiência, osteoporose ou prescrição médica devam abandonar suplementos. A pesquisa responde a uma pergunta mais específica: vale a pena suplementar rotineiramente cálcio e vitamina D apenas para tentar evitar fraturas?
Revisão reuniu 69 ensaios clínicos
Os pesquisadores incluíram ensaios randomizados que compararam cálcio, vitamina D ou a associação dos dois com placebo ou nenhum tratamento. No total, 153.902 adultos participaram dos 69 estudos analisados.
A maior parte dos participantes, cerca de 87%, vivia na comunidade, e 73% não apresentavam risco elevado de quedas ou fraturas. Além disso, a revisão excluiu pessoas que já recebiam medicamentos específicos para tratamento da osteoporose.
Por isso, os resultados dizem mais sobre a suplementação preventiva em adultos de forma geral do que sobre pacientes com osteoporose estabelecida ou risco muito alto de fraturas.
Vitamina D sozinha não reduziu as fraturas
No caso da vitamina D, os pesquisadores reuniram 36 ensaios clínicos com mais de 92 mil participantes para avaliar a ocorrência de qualquer tipo de fratura.
O resultado foi praticamente neutro: o risco relativo foi de 1,00. Em outras palavras, o grupo que tomou vitamina D apresentou, no conjunto dos estudos, frequência de fraturas semelhante à observada entre aqueles que não receberam a suplementação. A certeza da evidência para esse resultado foi considerada alta.
Além disso, a análise não encontrou benefício clinicamente relevante da vitamina D isolada para fratura de quadril, fraturas vertebrais, outras fraturas ou prevenção de quedas.
Isso reforça uma conclusão que já vinha aparecendo em pesquisas anteriores: em pessoas geralmente saudáveis e sem deficiência conhecida, tomar vitamina D simplesmente com o objetivo de impedir uma fratura pode não produzir o benefício imaginado.
E o cálcio?
O resultado com cálcio isolado também não mostrou uma proteção clara.
Onze estudos, com 9.067 participantes, avaliaram o risco de qualquer fratura. O risco relativo foi de 0,91, mas o intervalo de confiança incluiu a possibilidade de ausência de benefício. Por isso, os autores concluíram que o cálcio sozinho produziu pouco ou nenhum efeito relevante na prevenção de fraturas.
Os pesquisadores chegaram a observar uma tendência inesperada de maior número de fraturas de quadril entre pessoas que receberam cálcio isoladamente. No entanto, o resultado foi impreciso e incerto. Os próprios autores ressaltaram que não permite concluir que o cálcio aumente o risco de fratura.
Cálcio e vitamina D juntos tiveram resultado um pouco diferente
A combinação dos dois nutrientes apresentou um resultado estatisticamente mais favorável.
Quinze ensaios, com 51.126 participantes, apontaram risco relativo de 0,91 para qualquer fratura entre aqueles que receberam cálcio e vitamina D juntos. Ou seja, houve uma pequena redução relativa.
No entanto, quando os pesquisadores avaliaram o tamanho real do benefício, a diferença ficou abaixo do limite definido previamente como clinicamente importante.
Em números absolutos, a suplementação combinada esteve associada a aproximadamente uma fratura a menos a cada 100 pessoas tratadas. Para fratura de quadril, seria necessário tratar cerca de 333 pessoas para evitar um evento, enquanto nas fraturas não vertebrais o número ficou em torno de 63.
Além disso, boa parte dessa pequena diferença veio de um estudo realizado em uma população de risco muito elevado. Assim, o benefício provavelmente seria ainda menor entre adultos da população geral.
Então vitamina D e cálcio não servem para os ossos?
Essa conclusão seria equivocada.
O cálcio continua sendo um componente essencial da estrutura óssea, enquanto a vitamina D participa da absorção do cálcio e de diversos processos relacionados ao metabolismo ósseo.
A questão levantada pela nova revisão é outra: garantir que o organismo tenha nutrientes adequados não significa necessariamente que consumir doses extras em forma de suplemento evite fraturas em pessoas que já apresentam ingestão suficiente e não possuem uma indicação clínica específica.
Por isso, é importante diferenciar necessidade nutricional de suplementação indiscriminada.
A Bone Health & Osteoporosis Foundation, por exemplo, continua recomendando que adultos obtenham quantidades adequadas de cálcio, preferencialmente por meio da alimentação quando possível. A instituição também ressalta que pessoas com osteoporose ou baixa massa óssea devem discutir a necessidade de vitamina D com o profissional que acompanha o tratamento.
Quem tem osteoporose deve parar de tomar?
Não.
A nova pesquisa não serve como orientação para interromper suplementos prescritos a pessoas com osteoporose.
Os ensaios incluídos excluíram participantes que recebiam medicamentos específicos para a doença. Além disso, pacientes com osteoporose, deficiência de vitamina D, baixa ingestão de cálcio ou outras condições clínicas podem ter necessidades diferentes.
Diretrizes da Endocrine Society, por exemplo, consideram cálcio e vitamina D como medidas auxiliares para mulheres na pós-menopausa com osteoporose e alto risco de fratura que recebem tratamento específico para a doença.
Dessa forma, alguém que já utiliza vitamina D ou cálcio por recomendação médica não deve suspender o tratamento com base apenas nos resultados dessa revisão.
Pessoas com deficiência de vitamina D são um caso diferente
Outro cuidado importante está na diferença entre suplementar uma pessoa saudável e tratar uma deficiência.
A revisão avaliou a suplementação como estratégia preventiva contra fraturas. Ela não demonstra que seja desnecessário corrigir deficiência de vitamina D, alterações no metabolismo do cálcio ou outras condições nas quais o médico indique tratamento.
Além disso, alguns grupos podem apresentar necessidades específicas por fatores como idade, alimentação, doenças gastrointestinais, uso de certos medicamentos ou dificuldade de absorção dos nutrientes.
Portanto, não existe uma conclusão do tipo “vitamina D não funciona”.
O que os resultados colocam em dúvida é o hábito de tomar o suplemento de maneira rotineira, sem uma indicação estabelecida, apenas na expectativa de evitar quedas e fraturas.
Diretrizes também ficaram mais cautelosas com suplementação de rotina
A Endocrine Society já adotou uma postura mais seletiva em sua diretriz sobre vitamina D.
Para adultos saudáveis entre 50 e 74 anos, a entidade sugere não utilizar rotineiramente doses de vitamina D acima das recomendações nutricionais simplesmente para prevenção de doenças. Também não recomenda exames rotineiros de vitamina D em adultos saudáveis sem outra indicação clínica.
Por outro lado, a mesma diretriz faz recomendações diferentes para alguns grupos. Em pessoas com 75 anos ou mais, por exemplo, sugere suplementação empírica de vitamina D por possíveis benefícios relacionados à mortalidade, dando preferência a doses diárias mais baixas em vez de grandes doses administradas de forma espaçada.
Ou seja, idade e condição de saúde fazem diferença.
Prevenir fraturas envolve muito mais do que suplementos
As fraturas, principalmente em pessoas mais velhas, não dependem apenas da quantidade de cálcio presente nos ossos. O risco envolve massa óssea, força muscular, equilíbrio, visão, medicamentos, doenças neurológicas e a própria possibilidade de sofrer uma queda.
Por isso, estratégias de prevenção costumam incluir atividade física, exercícios de força e equilíbrio, alimentação adequada, avaliação do risco de quedas e tratamento específico da osteoporose quando necessário.
Pacientes com maior risco também podem precisar de medicamentos capazes de reduzir efetivamente a ocorrência de fraturas. Entre as opções estão bisfosfonatos e outras terapias para osteoporose, cuja indicação depende da avaliação individual. Diretrizes recomendam atenção especial a pessoas que já sofreram fraturas ou apresentam risco elevado de novos eventos.
Assim, tomar apenas cálcio ou vitamina D não deve criar uma falsa sensação de proteção.
O estudo muda o que sabemos sobre suplementação?
A principal contribuição da revisão está no tamanho e na qualidade do conjunto de evidências analisado.
Ao reunir 69 estudos randomizados com mais de 153 mil pessoas, os pesquisadores conseguiram avaliar separadamente cálcio, vitamina D e a combinação dos dois. Além disso, classificaram a certeza de grande parte das evidências como moderada ou alta.
Ainda assim, existe uma limitação importante: havia menos informações sobre pessoas com risco muito elevado de fratura e indivíduos que vivem em instituições de longa permanência. Por isso, os autores reconhecem que as conclusões são menos seguras para esses grupos.
Para a maioria dos adultos avaliados, entretanto, a conclusão foi consistente: a suplementação rotineira de cálcio, vitamina D ou ambos produziu pouco ou nenhum benefício clinicamente relevante para evitar quedas e fraturas.
O que fazer na prática?
Para quem é saudável e toma vitamina D ou cálcio apenas porque acredita que o suplemento, sozinho, impedirá fraturas no futuro, o estudo oferece um bom motivo para conversar com um profissional de saúde e revisar essa necessidade.
Por outro lado, quem tem osteoporose, deficiência nutricional, baixa ingestão de cálcio ou recebeu orientação específica deve seguir o tratamento prescrito até conversar com o médico.
No fim, a mensagem da pesquisa não é abandonar cálcio ou vitamina D. Ela mostra que, na prevenção de fraturas, mais suplemento nem sempre significa mais proteção.
