SUS passa a oferecer cirurgia que trata glaucoma e catarata ao mesmo tempo
O Ministério da Saúde oficializou a incorporação de uma nova técnica cirúrgica ao SUS capaz de tratar simultaneamente duas doenças oculares bastante comuns: glaucoma e catarata.
A portaria foi publicada no Diário Oficial da União em 17 de setembro e atualiza o tratamento oferecido na rede pública. A técnica combina a cirurgia de catarata com um procedimento para melhorar a drenagem do líquido dentro do olho, ajudando a reduzir a pressão intraocular.
A novidade, porém, não serve para todos os pacientes com glaucoma. A indicação é voltada principalmente para pessoas com glaucoma primário de ângulo aberto em estágio leve a moderado que também apresentam catarata.
Como funciona a nova cirurgia?
Na cirurgia de catarata, o médico remove o cristalino que ficou opaco e coloca uma lente intraocular artificial.
Já no glaucoma, um dos principais objetivos do tratamento é reduzir a pressão dentro do olho. Isso pode ser feito com colírios, laser ou cirurgia, dependendo do estágio da doença.
A nova estratégia permite associar os dois tratamentos em uma mesma intervenção.
Segundo o Ministério da Saúde, existem duas possibilidades incorporadas:
- goniotomia excisional, feita por uma pequena incisão na córnea para abrir a região responsável pela drenagem;
- trabeculotomia transluminal, em que um microcateter ou fio cirúrgico percorre o canal natural de drenagem do olho para ampliá-lo.
Esses procedimentos fazem parte do grupo conhecido como cirurgias minimamente invasivas para glaucoma.
Quem poderá fazer?
A técnica não será indicada simplesmente porque o paciente possui catarata e glaucoma.
Segundo o Ministério da Saúde, a incorporação é direcionada para casos leves a moderados de glaucoma primário de ângulo aberto.
O glaucoma de ângulo aberto é a forma mais comum da doença e costuma evoluir lentamente. Muitas vezes, o paciente não percebe alterações importantes no início.
A decisão sobre a cirurgia dependerá da avaliação do oftalmologista, considerando fatores como:
- estágio do glaucoma;
- pressão intraocular;
- grau da catarata;
- funcionamento do nervo óptico;
- uso de colírios;
- resposta aos tratamentos anteriores.
Portanto, a incorporação não significa que todos os pacientes receberão automaticamente a nova técnica.
Qual é a vantagem de tratar as duas doenças juntas?
Uma das vantagens é evitar a necessidade de duas cirurgias separadas em pacientes que possuem as duas condições.
Além disso, o Ministério da Saúde aponta que a técnica pode proporcionar recuperação mais rápida, menor risco de complicações e melhor controle da pressão intraocular quando comparada a alternativas mais invasivas em pacientes adequadamente selecionados.
Outro possível benefício é reduzir a necessidade de colírios para glaucoma em alguns pacientes.
Isso não significa, entretanto, que todos conseguirão abandonar os medicamentos após a cirurgia. Algumas pessoas continuarão precisando de tratamento para controlar a pressão ocular.
O que é glaucoma?
O glaucoma é uma doença que provoca dano progressivo ao nervo óptico, estrutura responsável por levar as informações visuais do olho até o cérebro.
A pressão elevada dentro do olho é um dos principais fatores de risco, embora seja possível desenvolver glaucoma mesmo com pressão considerada normal.
Segundo dados citados pela Conitec, a doença pode atingir até 3% dos brasileiros com mais de 40 anos. O glaucoma primário de ângulo aberto corresponde a aproximadamente 60% dos diagnósticos no país.
Um dos maiores problemas é que a doença pode evoluir silenciosamente.
A perda visual geralmente começa pela visão periférica. Quando o paciente percebe dificuldade importante para enxergar, parte do dano ao nervo óptico pode já ser irreversível.
Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental.
E a catarata?
A catarata ocorre quando o cristalino, a lente natural do olho, perde sua transparência.
Com o avanço da doença, a visão pode ficar embaçada e o paciente pode apresentar sintomas como:
- dificuldade para enxergar à noite;
- sensibilidade maior à luz;
- cores menos intensas;
- necessidade frequente de trocar o grau dos óculos;
- visão progressivamente mais turva.
A catarata é mais comum com o envelhecimento.
Diferentemente do dano provocado pelo glaucoma, que pode ser permanente, a perda visual causada pela catarata geralmente pode ser corrigida por cirurgia.
Glaucoma e catarata podem acontecer ao mesmo tempo?
Sim.
Como as duas doenças se tornam mais frequentes com a idade, é relativamente comum que uma pessoa apresente catarata e glaucoma simultaneamente.
Nesses casos, o oftalmologista precisa decidir se realiza apenas a cirurgia da catarata, se trata primeiro o glaucoma ou se combina os procedimentos.
É justamente nesse último cenário que a nova técnica incorporada ao SUS pode ser utilizada em pacientes selecionados.
Cirurgia substitui o tratamento com colírio?
Nem sempre.
Atualmente, o tratamento inicial do glaucoma no SUS é orientado pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença.
Normalmente, são utilizados colírios para reduzir a pressão intraocular. Quando o tratamento medicamentoso não controla adequadamente a doença, ou quando há dificuldade para manter o uso regular, podem ser considerados procedimentos a laser ou cirurgias.
Portanto, a nova técnica passa a ser mais uma opção dentro da linha de cuidado.
Ela não substitui automaticamente os colírios nem significa que todo paciente com glaucoma precisará de cirurgia.
A cirurgia cura o glaucoma?
Não.
Essa é uma diferença importante entre as duas doenças.
A catarata pode ser removida cirurgicamente. Já o glaucoma é uma doença crônica.
O objetivo da cirurgia é controlar a pressão intraocular e reduzir o risco de progressão da lesão do nervo óptico.
O tratamento pode impedir ou retardar a piora, mas não recupera necessariamente a visão já perdida pelo glaucoma.
Por isso, mesmo depois da cirurgia, o acompanhamento com oftalmologista continua sendo importante.
Técnica pode reduzir complicações
O Ministério da Saúde classifica a nova abordagem como menos invasiva do que algumas das alternativas cirúrgicas utilizadas atualmente.
Como o procedimento aproveita o sistema natural de drenagem do olho, ele pode apresentar menor risco de determinadas complicações quando comparado a cirurgias tradicionais de glaucoma em pacientes adequados.
A indicação, porém, precisa ser individualizada.
Casos avançados de glaucoma podem necessitar de outros tipos de cirurgia capazes de reduzir mais intensamente a pressão ocular.
SUS também espera reduzir custos
A avaliação feita pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS também levou em consideração o impacto econômico.
Segundo o relatório citado pelo Ministério da Saúde, a goniotomia excisional pode gerar economia estimada de R$ 22,4 milhões no primeiro ano, chegando a R$ 93,2 milhões no quinto ano, quando comparada ao uso do implante de drenagem conhecido como iStent.
Ao longo de cinco anos, a estimativa acumulada de economia chega a R$ 276 milhões.
Os valores são projeções econômicas e não significam necessariamente que toda essa economia ocorrerá exatamente nos montantes estimados.
Quando a cirurgia estará disponível?
A incorporação já foi oficializada pelo Ministério da Saúde.
O próximo passo é a inclusão da técnica no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do glaucoma, além da organização dos serviços para disponibilizar o procedimento na rede.
Isso significa que a incorporação ao SUS não necessariamente faz com que a cirurgia esteja disponível imediatamente em todos os hospitais do país.
A implementação depende da organização local, disponibilidade de equipes habilitadas e estrutura dos serviços oftalmológicos.
Como conseguir avaliação pelo SUS?
Quem apresenta suspeita de catarata ou glaucoma deve inicialmente procurar atendimento na rede pública.
Dependendo da organização de cada município, o paciente pode ser encaminhado da atenção primária para uma consulta oftalmológica especializada.
Após avaliação, o oftalmologista poderá indicar tratamento com colírios, laser, cirurgia de catarata ou, quando o paciente preencher os critérios, a cirurgia combinada.
Por isso, não é possível solicitar diretamente a nova técnica apenas com base no diagnóstico.
A decisão depende de indicação médica.
Quais sinais merecem atenção?
O glaucoma costuma ser silencioso em sua forma mais comum, mas alguns fatores aumentam a importância da avaliação oftalmológica periódica, especialmente:
- idade acima de 40 anos;
- histórico familiar de glaucoma;
- pressão intraocular elevada;
- miopia elevada;
- diabetes;
- alterações prévias no nervo óptico.
Já sintomas como visão embaçada progressivamente, dificuldade para enxergar à noite e maior sensibilidade à luz podem ocorrer na catarata.
Casos de dor ocular intensa, olho vermelho, visão borrada súbita, halos ao redor das luzes, náuseas ou vômitos exigem atendimento rápido, pois podem estar relacionados a formas agudas de glaucoma.
O que muda na prática?
A principal novidade é que o SUS passa a incorporar uma estratégia que permite tratar catarata e determinados casos de glaucoma em uma única intervenção.
Para o paciente adequado, isso pode significar uma cirurgia menos invasiva, melhor controle da pressão ocular e a possibilidade de evitar procedimentos separados.
No entanto, a indicação permanece restrita principalmente aos casos leves e moderados de glaucoma primário de ângulo aberto.
Assim, quem possui glaucoma e catarata deve conversar com o oftalmologista para saber se a técnica é adequada ao seu caso.
