Anel Inteligente mede Glicose? Anvisa faz Alerta sobre Dispositivos
Anéis inteligentes estão ganhando espaço entre pessoas que querem acompanhar sono, atividade física, frequência cardíaca e outros indicadores pelo celular. Alguns produtos vendidos pela internet, porém, vão além e prometem algo especialmente atraente: medir a glicose sem furar o dedo ou usar um sensor inserido na pele.
É justamente essa promessa que levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a publicar um alerta nesta quinta-feira, 27 de agosto.
Segundo a agência, não existem atualmente smartwatches ou anéis vestíveis autorizados pela Anvisa para realizar medição não invasiva de glicose. A capacidade desses equipamentos de fornecer esse tipo de resultado com precisão ainda não foi comprovada pelos fabricantes perante a autoridade sanitária.
A orientação é especialmente importante para pessoas com diabetes, já que uma leitura incorreta pode levar a decisões perigosas sobre alimentação, medicamentos e aplicação de insulina.
Afinal, anel inteligente consegue medir glicose?
Os anéis inteligentes disponíveis atualmente podem possuir diversos sensores e recursos relacionados ao acompanhamento da saúde e do bem-estar.
Entretanto, isso não significa que sejam capazes de funcionar como um glicosímetro.
De acordo com a Anvisa, nenhum smartwatch ou anel vestível está atualmente regularizado no país para medir glicose de maneira não invasiva.
A agência já havia feito alerta semelhante sobre relógios inteligentes e, em 2025, chegou a proibir produtos comercializados pela internet que prometiam medir glicose por meio de um anel sem perfurar a pele. Esses produtos não tinham registro nem eficácia comprovada.
Por que medir glicose sem furar a pele é tão difícil?
A glicemia representa a concentração de glicose no sangue.
Nos glicosímetros tradicionais, uma pequena gota de sangue é colocada em uma fita reagente e analisada pelo aparelho.
Já os sistemas de monitoramento contínuo de glicose utilizam um pequeno sensor inserido na pele. Em vez de medir diretamente o sangue, esses equipamentos acompanham a glicose no líquido intersticial.
O desafio dos anéis e relógios que prometem uma medição totalmente não invasiva é conseguir estimar a glicose com precisão suficiente sem acessar sangue ou líquido intersticial.
Uma diferença aparentemente pequena no resultado pode ser relevante para alguém que utiliza insulina ou outro medicamento para controlar o diabetes.
Por isso, a Anvisa exige comprovação de segurança e desempenho antes de permitir que um dispositivo seja comercializado com essa finalidade.
Uma leitura errada pode ser perigosa
O problema não está apenas em mostrar um número incorreto na tela.
Imagine uma pessoa com diabetes que recebe do anel a informação de que sua glicose está elevada. Com base naquele resultado, ela decide aplicar uma quantidade maior de insulina.
Se a medição estiver errada, existe risco de a glicose cair excessivamente. A Anvisa alerta justamente que imprecisões podem induzir ao uso de quantidades inadequadas de insulina.
A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, também já publicou um alerta sobre relógios e anéis que alegam medir glicose sem perfurar a pele. Segundo a autoridade americana, leituras imprecisas podem levar a erros no tratamento e, em situações graves, provocar hipoglicemia severa, coma e até morte.
Então anéis inteligentes não servem para acompanhar a saúde?
Não é isso. A Anvisa diferencia dispositivos destinados ao bem-estar daqueles desenvolvidos com finalidade médica.
Muitos anéis são comercializados como acessórios para acompanhar atividade física, qualidade do sono e outras informações relacionadas ao estilo de vida.
Quando o fabricante passa a atribuir ao equipamento funções tipicamente clínicas — como medir glicemia, pressão arterial, oximetria ou realizar eletrocardiograma — entram em cena exigências sanitárias específicas.
Isso acontece porque uma informação usada para tomar decisões médicas precisa apresentar níveis de precisão, segurança e desempenho comprovados.
E a oxigenação do sangue?
O novo alerta traz outro detalhe importante.
Segundo a Anvisa, também não existem atualmente smartwatches ou anéis vestíveis autorizados pela agência para realizar oximetria de maneira não invasiva.
A afirmação pode causar estranhamento porque diversos relógios e anéis vendidos atualmente apresentam estimativas de saturação de oxigênio.
O ponto central é a finalidade do recurso.
Uma estimativa oferecida como informação de bem-estar não deve automaticamente ser interpretada como equivalente à medição realizada por um dispositivo médico regularizado.
Por isso, resultados apresentados por esses equipamentos não devem ser utilizados isoladamente para confirmar ou descartar doenças.
E frequência cardíaca, sono e outros dados?
A situação também depende da finalidade atribuída ao dispositivo. Alguns parâmetros utilizados apenas para atividades esportivas ou bem-estar podem não ser considerados de uso exclusivamente médico.
Por outro lado, recursos destinados a medir ou interpretar parâmetros tipicamente clínicos podem exigir regularização.
A Anvisa cita como exemplos:
- glicemia;
- pressão arterial;
- oximetria;
- eletrocardiograma;
- notificação de ritmo cardíaco irregular;
- alertas relacionados a possíveis doenças.
Por isso, ter sensores sofisticados não transforma automaticamente um wearable em equipamento médico.
Smartwatch pode mostrar a glicose de um sensor?
Sim, e essa diferença é fundamental.
Existem sistemas de monitoramento contínuo de glicose que utilizam um sensor inserido na pele e enviam os resultados para um aplicativo.
Nesse caso, o smartwatch ou celular pode funcionar apenas como uma tela para exibir os dados obtidos pelo sensor.
Ou seja: não é o relógio que está medindo a glicose.
A própria Anvisa possui orientações específicas sobre aplicativos de celulares e smartwatches conectados a sistemas de monitoramento contínuo.
Isso é completamente diferente de um anel que promete colocar no dedo e, sozinho, informar a glicemia sem qualquer sensor invasivo.
Cuidado com anúncios que prometem substituir o glicosímetro
A promessa de medir glicose sem agulhas é bastante atraente, especialmente para quem precisa acompanhar o açúcar no sangue várias vezes ao dia.
Isso também abre espaço para produtos irregulares.
Em setembro de 2025, a Anvisa proibiu diferentes produtos vendidos como anéis capazes de medir glicose, oxigenação e atividade cardíaca. A agência informou que eles não possuíam eficácia comprovada nem registro sanitário.
Um mês antes, outro produto comercializado como relógio inteligente para controle do diabetes e pressão arterial também havia sido proibido pelo mesmo motivo.
Por isso, anúncios com expressões como “glicose sem furar o dedo”, “controle do diabetes pelo anel” ou “medição instantânea sem agulha” merecem atenção.
Como saber se um dispositivo é autorizado pela Anvisa?
Produtos destinados a realizar medições médicas precisam estar devidamente regularizados.
A situação pode ser consultada no sistema oficial de produtos para saúde da Anvisa:
Consultar produtos regularizados na Anvisa
É importante pesquisar o produto e também verificar qual é exatamente a finalidade aprovada.
Um equipamento pode estar regularizado para determinada função, mas isso não significa que todas as funcionalidades anunciadas estejam autorizadas para uso médico.
Anel inteligente não deve substituir avaliação médica
A orientação da Anvisa é clara: dados fornecidos por anéis inteligentes não devem ser usados isoladamente para diagnosticar ou descartar doenças, definir tratamentos, modificar medicamentos ou substituir exames e avaliações profissionais.
Um resultado aparentemente normal também não garante que a pessoa esteja saudável.
Da mesma maneira, um alerta emitido pelo dispositivo não significa necessariamente que exista uma doença.
Para quem tem diabetes e precisa monitorar a glicose, a recomendação continua sendo utilizar métodos validados e adequados para essa finalidade.
A possibilidade de medir glicose de forma totalmente não invasiva continua sendo estudada. Até que uma tecnologia demonstre precisão e segurança suficientes e seja devidamente autorizada, um anel que promete medir sozinho a glicose sem furar a pele não deve substituir glicosímetros ou sistemas de monitoramento contínuo regularizados.
