Anvisa aprova Wegovy em comprimido para tratar obesidade
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta quarta-feira, 4 de novembro, a versão em comprimido do Wegovy, medicamento à base de semaglutida indicado para o tratamento da obesidade e do sobrepeso associado a problemas de saúde relacionados ao excesso de peso. A novidade cria uma alternativa oral ao Wegovy injetável, atualmente administrado uma vez por semana.
O Wegovy oral será utilizado uma vez ao dia e contém o mesmo princípio ativo da versão injetável: a semaglutida, um medicamento da classe dos agonistas do receptor de GLP-1. A dose de manutenção estudada para obesidade é de 25 mg diários, alcançada progressivamente para reduzir a ocorrência de efeitos gastrointestinais.
A aprovação brasileira se baseia principalmente nos resultados do estudo clínico de fase 3 OASIS 4, publicado em 2025 no New England Journal of Medicine. No ensaio, adultos com obesidade ou sobrepeso e pelo menos uma complicação relacionada ao peso receberam semaglutida oral ou placebo, além de orientações de estilo de vida. Após 64 semanas, a redução média de peso foi significativamente maior entre aqueles que utilizaram o medicamento.
Quanto peso os participantes perderam?
Na análise principal do OASIS 4, a redução média do peso corporal foi de 13,6% com semaglutida oral, contra 2,2% no grupo placebo após 64 semanas. A diferença média entre os grupos foi de 11,4 pontos percentuais.
A fabricante também divulga outro número, próximo de 16,6% a 17%, referente a uma análise que considera o efeito do medicamento em participantes que permaneceram no tratamento conforme planejado. Essa diferença acontece porque estudos clínicos podem apresentar estimativas diferentes dependendo de como são tratados casos de interrupção, abandono ou necessidade de outras intervenções.
Por isso, dizer apenas que o Wegovy em comprimido proporciona “17% de emagrecimento” sem explicar a metodologia pode dar uma impressão simplificada demais. O resultado da análise principal publicada no artigo científico foi de 13,6% de redução média do peso.
Um em cada três perdeu pelo menos 20% do peso?
A Novo Nordisk informa que cerca de um em cada três participantes que utilizou o comprimido perdeu 20% ou mais do peso corporal no estudo. O ensaio publicado também mostrou que os participantes que receberam semaglutida tiveram probabilidade significativamente maior de perder pelo menos 5%, 10%, 15% e 20% do peso do que aqueles que receberam placebo.
Isso não significa, entretanto, que toda pessoa que usar o medicamento perderá 20% do peso. A resposta aos agonistas de GLP-1 varia bastante entre indivíduos e depende de fatores como adesão, tolerabilidade, alimentação, atividade física, dose alcançada e características metabólicas.
Quem poderá usar Wegovy em comprimido?
A indicação anunciada no Brasil é para adultos com:
- IMC igual ou superior a 30 kg/m², caracterizando obesidade; ou
- IMC a partir de 27 kg/m², quando existe pelo menos uma condição relacionada ao excesso de peso.
Entre essas condições podem estar hipertensão, alterações de colesterol, pré-diabetes, diabetes tipo 2, apneia do sono e doença cardiovascular, conforme as indicações já utilizadas para a semaglutida no controle crônico do peso.
O medicamento é indicado como complemento a mudanças de alimentação e aumento da atividade física. A aprovação não significa que ele seja apropriado para qualquer pessoa que queira perder poucos quilos.
É o mesmo remédio da caneta?
O princípio ativo é o mesmo: semaglutida.
O que muda é principalmente a via de administração. O Wegovy injetável é aplicado por via subcutânea uma vez por semana, enquanto a nova versão é tomada por via oral diariamente.
A dose também não pode ser comparada diretamente. A caneta utiliza miligramas administrados por via subcutânea, enquanto o comprimido precisa de uma dose oral maior porque apenas uma parte da semaglutida ingerida consegue ser absorvida pelo organismo.
Portanto, 25 mg de semaglutida oral não equivalem simplesmente a 25 mg injetáveis.
Wegovy oral é igual ao Rybelsus?
Não.
O Rybelsus também contém semaglutida oral, mas foi desenvolvido e aprovado para tratamento do diabetes tipo 2, em doses diferentes. O Wegovy comprimido foi desenvolvido especificamente para controle crônico do peso e utiliza dose de manutenção mais elevada.
Por isso, não é correto substituir um medicamento pelo outro ou simplesmente aumentar a dose de uma apresentação sem orientação médica.
Como o comprimido funciona?
A semaglutida imita a ação de um hormônio chamado GLP-1, produzido naturalmente no organismo após a alimentação.
Entre seus efeitos estão o aumento da sensação de saciedade, redução da fome e diminuição da ingestão energética. O medicamento também retarda o esvaziamento gástrico em determinadas fases do tratamento e atua em regiões do cérebro envolvidas na regulação do apetite.
Esses mecanismos ajudam a explicar a perda de peso observada nos estudos.
Como o comprimido deve ser tomado?
A formulação oral de Wegovy foi desenvolvida para uso uma vez ao dia.
Nos Estados Unidos, onde a formulação já está aprovada, a bula orienta tomar o comprimido pela manhã, em jejum, com pequena quantidade de água, aguardando pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou tomar outros medicamentos por via oral.
A orientação definitiva para pacientes brasileiros deve seguir a bula aprovada pela Anvisa quando o medicamento for comercializado no país, já que recomendações regulatórias podem apresentar diferenças entre mercados.
Quais foram os efeitos colaterais?
Assim como ocorre com a semaglutida injetável, os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais.
No OASIS 4, 74% dos participantes que receberam semaglutida oral apresentaram algum evento gastrointestinal, contra 42,2% no grupo placebo. A maioria foi classificada como leve ou moderada.
Entre os efeitos associados à classe estão náusea, vômitos, diarreia, constipação e desconforto abdominal.
Esses sintomas tendem a ocorrer principalmente durante o aumento gradual da dose, razão pela qual o tratamento não começa diretamente na dose máxima.
Existem riscos mais graves?
Sim, embora sejam menos frequentes.
A semaglutida possui alertas para situações como pancreatite, problemas da vesícula biliar, desidratação associada a sintomas gastrointestinais intensos e agravamento de retinopatia diabética em determinados pacientes com diabetes.
Também existem contraindicações específicas descritas nas bulas dos medicamentos da classe, razão pela qual a avaliação médica antes do início do tratamento é importante.
Gestantes não devem utilizar semaglutida para controle de peso, e o tratamento precisa ser interrompido com antecedência quando existe planejamento de gravidez, conforme orientação médica.
O comprimido funciona tão bem quanto a caneta?
Os resultados são próximos, mas uma comparação direta exige cautela porque os medicamentos foram estudados em ensaios diferentes.
No estudo STEP 1, publicado em 2021, a semaglutida injetável de 2,4 mg por semana produziu perda média próxima de 15% do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso.
No OASIS 4, a semaglutida oral de 25 mg apresentou redução média de 13,6% na análise principal, chegando a aproximadamente 17% em outra estimativa utilizada pela fabricante.
Esses resultados indicam eficácia relevante da formulação oral, mas não permitem afirmar que uma apresentação seja necessariamente melhor para todos os pacientes.
Quem tem medo de agulha pode preferir o comprimido?
Essa é uma das principais vantagens práticas da nova apresentação.
Algumas pessoas adiam ou recusam tratamentos injetáveis por desconforto ou receio das aplicações. A existência de uma opção oral pode ampliar as possibilidades de tratamento e permitir uma escolha mais adequada à preferência do paciente.
Por outro lado, o comprimido precisa ser utilizado diariamente e exige cuidados específicos para favorecer sua absorção, enquanto a caneta é administrada apenas uma vez por semana.
A escolha deve considerar eficácia, tolerabilidade, rotina, preferência, custo e recomendação médica.
Vai precisar de receita?
Sim.
A semaglutida é medicamento de prescrição e não deve ser utilizada por conta própria para emagrecimento.
Além disso, agonistas de GLP-1 passaram a ser submetidos no Brasil a controle mais rigoroso de dispensação, com retenção de receita nas farmácias.
A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” levou a Anvisa e outras autoridades a reforçarem alertas sobre automedicação e utilização fora das indicações aprovadas.
Quando chega às farmácias?
A aprovação da Anvisa não significa que o Wegovy comprimido estará disponível imediatamente nas farmácias brasileiras.
A Novo Nordisk afirma que espera disponibilizar o medicamento no Brasil nos próximos trimestres, sem informar até o momento uma data exata.
Depois do registro sanitário, ainda existem etapas comerciais e regulatórias relacionadas à definição de preço e lançamento.
A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) é responsável pela regulação de preços de medicamentos no Brasil. Portanto, o valor ao consumidor também ainda não está definido publicamente.
Quanto vai custar?
Ainda não há preço oficial anunciado para o Wegovy em comprimido no Brasil.
O valor da versão injetável não permite prever diretamente o preço do comprimido, porque apresentações diferentes passam por processos próprios de precificação.
O preço máximo autorizado deverá ser definido dentro das regras da CMED antes da comercialização.
Wegovy oral estará disponível no SUS?
A aprovação pela Anvisa não significa incorporação automática ao Sistema Único de Saúde.
Registro sanitário e incorporação ao SUS são processos diferentes. Para que uma nova tecnologia seja oferecida amplamente pela rede pública, normalmente é necessária avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), considerando eficácia, segurança, impacto orçamentário e custo-efetividade.
Em setembro de 2026, o Ministério da Saúde protocolou na Conitec pedido de avaliação para incorporação de medicamentos agonistas de GLP-1 no tratamento da obesidade. Esse processo é independente da aprovação da nova apresentação oral do Wegovy.
Obesidade é doença crônica
O avanço dos medicamentos da classe GLP-1 também mudou a forma como o tratamento da obesidade é discutido.
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e associada a maior risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, apneia do sono, doença hepática metabólica e alguns tipos de câncer.
Por isso, medicamentos podem fazer parte do tratamento de determinados pacientes, mas não substituem acompanhamento médico, alimentação adequada, atividade física e estratégias de mudança de comportamento.
Além disso, o controle do peso costuma exigir tratamento prolongado. Estudos com agonistas de GLP-1 mostram que parte do peso perdido pode ser recuperada após a interrupção do medicamento.
Medicamento não deve ser usado apenas por estética
O Wegovy foi desenvolvido para tratamento de pessoas que atendem a critérios médicos de obesidade ou sobrepeso associado a problemas de saúde.
Isso é diferente de utilizar semaglutida apenas para eliminar poucos quilos por finalidade estética.
A indicação correta depende da avaliação de IMC, condições associadas, tratamentos anteriores, contraindicações e objetivos terapêuticos.
O acompanhamento também permite ajustar a dose progressivamente e observar possíveis efeitos adversos.
O que o OASIS 4 realmente mostrou?
O ensaio OASIS 4 foi um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, considerado um desenho robusto para avaliar eficácia de medicamentos. Participaram 307 adultos sem diabetes, distribuídos em 22 centros de quatro países.
Os participantes tinham obesidade ou sobrepeso acompanhado de pelo menos uma complicação relacionada ao peso. Todos receberam também intervenção de estilo de vida.
Ao final de 64 semanas, a semaglutida oral proporcionou perda de peso significativamente maior que o placebo e aumentou a proporção de participantes que conseguiram reduzir 5%, 10%, 15% ou 20% do peso corporal.
O estudo, entretanto, foi financiado pela Novo Nordisk, fabricante da semaglutida, e alguns autores tinham vínculo com a empresa. Isso não invalida o ensaio, mas é uma informação importante para avaliar os resultados e reforça a necessidade de considerar o conjunto das evidências científicas.
O que muda com a aprovação?
Até agora, quem buscava tratamento com semaglutida especificamente aprovada para obesidade no Brasil tinha como principal opção o Wegovy injetável semanal.
A chegada do comprimido cria uma nova alternativa para pessoas que preferem evitar injeções ou que conseguem aderir melhor a uma medicação oral diária.
A decisão sobre qual apresentação utilizar, entretanto, continuará dependendo da avaliação médica. O medicamento ainda não tem data nem preço anunciados para chegar às farmácias brasileiras.
